Amputação transtibial
O que muda quando a perna é amputada abaixo do joelho, como fica o coto e o caminho até a prótese.

Resposta curta: A amputação transtibial é feita na perna, entre o joelho e o tornozelo, através dos ossos da canela (tíbia e fíbula). O joelho fica. Isso é o que mais pesa na reabilitação: você continua dobrando e esticando o próprio joelho, e a prótese substitui a canela, o tornozelo e o pé.
Onde é feita
O corte passa pela tíbia e pela fíbula, os dois ossos da perna entre o joelho e o tornozelo. No dia a dia ela é chamada de amputação abaixo do joelho. Nos documentos em inglês aparece como "below knee", ou BK.
Na lista de níveis de amputação do membro inferior das Diretrizes do Ministério da Saúde, a transtibial vem logo abaixo da desarticulação do joelho e acima dos níveis do tornozelo e do pé. A mesma diretriz orienta o cirurgião a preservar tanto comprimento quanto possível, escolhendo um nível que cicatrize bem, com boa cobertura de pele e sensibilidade preservada.
O que se preserva: a coxa inteira, a articulação do joelho e os músculos que movem o joelho. O que sai: parte da canela, o tornozelo e o pé.
Por que é indicada
As causas são as mesmas das amputações de perna em geral. As mais frequentes, segundo o Ministério da Saúde, são as complicações de doenças crônicas, como a doença vascular periférica e o diabetes, e elas aparecem mais em pessoas idosas. O trauma, principalmente acidente de trânsito e ferimento por arma de fogo, é a segunda maior causa.
O MedlinePlus, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, lista ainda infecção que não cede ou piora, tumor, queimadura grave, congelamento e ferida que não cicatriza. Quem decide o nível é o cirurgião, com base na circulação, na pele e na doença de cada pessoa.
Como fica o coto
O coto transtibial é a parte da perna que fica abaixo do joelho. Como o joelho é seu, a prótese trabalha junto com ele, e o encaixe é feito para distribuir o peso pelas áreas da perna que aguentam carga.
O cuidado que mais aparece nas fontes é evitar que o joelho trave dobrado. A Amputee Coalition explica que a contratura mais comum depois da amputação abaixo do joelho acontece no joelho, quando ele fica flexionado e não consegue esticar por completo. Contratura pode doer e atrapalha o encaixe da prótese.
Por isso o Ministério da Saúde recomenda que, sentada, a pessoa com amputação transtibial tenha um apoio para o coto que mantenha o joelho esticado, inclusive na cadeira de rodas. Na cama, a orientação é deixar quadril e joelho em posição neutra, sem travesseiro embaixo do joelho e sem deixar o coto pendurado para fora do leito.
O coto também muda de volume. A Amputee Coalition descreve que essa variação é mais forte no primeiro ano e continua ao longo da vida, e que as meias de prótese ajudam a compensar. É uma das razões pelas quais o encaixe precisa de ajuste com o tempo.
O que esperar, fase a fase
As faixas abaixo são referência. Elas vêm de um guia da Amputee Coalition, dos Estados Unidos, e o tempo real depende da cicatrização, da circulação, da idade e da condição clínica de cada pessoa.
- Cirurgia e internação. A reabilitação começa no hospital. O Ministério da Saúde orienta que o coto não fique imobilizado e que a mobilização comece entre 24 e 48 horas depois da cirurgia, sempre respeitando a ferida.
- Cicatrização e enfaixamento. Ainda nessa fase começa o enfaixamento compressivo, que reduz o inchaço e modela o coto. A pressão tem que ser maior na ponta do coto e diminuir em direção ao joelho. Se formigar, a faixa deve ser afrouxada. Quem não consegue enfaixar pode usar uma malha compressiva.
- Preparo do coto. Na referência da Amputee Coalition, entre duas e quatro semanas o inchaço diminui, a cicatriz fecha e começa a terapia pré-protética. Entram dessensibilização (massagem, texturas, água morna e fria), fortalecimento do coto e do corpo todo, e alongamento de quadril e joelho.
- Prótese provisória. O MedlinePlus diz que a moldagem pode acontecer quando a ferida está quase toda cicatrizada e a região não dói mais ao toque. No guia da Amputee Coalition, a primeira prova de prótese aparece como referência entre 8 e 12 semanas.
- Treino. Com a prótese, a fisioterapia ensina a colocar e tirar, passar o peso para a perna protetizada, sentar e levantar, subir e descer escada e rampa e andar em terreno irregular, como descreve o Ministério da Saúde. O treino costuma progredir das barras paralelas para andador e muletas.
- Prótese definitiva. Segundo a Amputee Coalition, o coto continua amadurecendo nos primeiros três a seis meses de uso da prótese. Quando o volume estabiliza, o encaixe definitivo é feito. Depois disso, o acompanhamento regular mantém o encaixe confortável.
Prótese para esse nível
A prótese transtibial tem, em geral, um liner, um encaixe, um tubo (pilão) e um pé. A Amputee Coalition chama o encaixe de parte mais importante da prótese: um encaixe que não serve bem pode doer e causar feridas e bolhas.
O liner é uma camada macia, muitas vezes de silicone, que fica entre a pele e o encaixe. A prótese pode ficar presa ao coto de formas diferentes: com pino na ponta do liner, com joelheira de vedação e válvula, com vácuo ou com correia acima do joelho. O pé é escolhido pelo nível de atividade de cada pessoa.
Veja o guia completo da prótese transtibial e o catálogo de componentes, com as páginas de pés protéticos, liners e encaixes. A escolha de cada peça sai da avaliação, da prescrição médica e do seu objetivo.
Reabilitação e dia a dia
No começo, quase toda pessoa com amputação de perna usa cadeira de rodas, e o Ministério da Saúde pede que ela seja ajustada ao corpo e tenha apoio para o coto. Antes de andar, a fisioterapia ensina as transferências: da cama para a cadeira, da cadeira para o vaso, do carro para a cadeira.
O fortalecimento tem que ser global, não só do coto, porque depois da amputação você usa outros grupos musculares para as tarefas do dia. A perna que ficou precisa ser acompanhada de perto, principalmente quando a causa foi diabetes ou problema de circulação.
A terapia ocupacional entra nas atividades de vida diária: banho, vestir, cozinha, trabalho. Algumas tarefas continuam sendo feitas sem a prótese, como levantar à noite ou tomar banho, e para elas vale combinar com a equipe o apoio mais seguro, seja muleta, andador ou cadeira.
A dor e a sensação fantasma são comuns. O NHS, serviço de saúde do Reino Unido, explica que a dor fantasma é real e já foi confirmada em exames de imagem do cérebro. Existem tratamentos, e o assunto deve ser levado ao médico.
Perguntas frequentes
Amputação transtibial é o mesmo que amputação abaixo do joelho?
Sim. Transtibial é o nome técnico, porque o corte passa pela tíbia. No dia a dia se diz abaixo do joelho.
Quanto tempo depois da cirurgia dá para colocar a prótese?
Depende da cicatrização e do coto. O MedlinePlus fala em moldar quando a ferida está quase toda fechada e não dói ao toque. A Amputee Coalition cita a primeira prova entre 8 e 12 semanas como referência, mas cada caso tem seu tempo.
Por que não posso deixar travesseiro embaixo do joelho?
Porque o joelho pode encurtar na posição dobrada. Essa contratura atrapalha o encaixe e a marcha. O Ministério da Saúde orienta manter o joelho esticado, deitado e sentado.
O coto muda de tamanho depois da prótese?
Muda. O volume varia mais no primeiro ano e segue variando ao longo da vida. Meias de prótese e ajustes no encaixe compensam essa mudança.
Preciso enfaixar o coto?
Sim, na maioria dos casos, com orientação da equipe. O enfaixamento reduz o inchaço e modela o coto para a prótese. Uma malha compressiva pode substituir a faixa.
Vou sentir a perna que não está mais lá?
É comum. Sensação e dor fantasma acontecem em muitas pessoas amputadas e têm tratamento. Conte à equipe quando aparecer.
Leia também
- O que é amputação transtibial
- Prótese de perna transtibial: componentes
- Quando começar o enfaixamento do coto
- Como preparar o coto para a prótese
- Direitos da pessoa amputada e agende uma avaliação
Fontes
- Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa Amputada. Brasília, 2013.
- Amputee Coalition. Beginning Your New Journey: Below-Knee Amputation. 2025.
- Össur. All About Leg Amputation.
- MedlinePlus (NIH). Leg or foot amputation.
- NHS. Amputation.
Conteúdo informativo, não substitui a orientação do médico e da equipe de reabilitação. Atualizado em 28/09/2026.
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