Amputação de Lisfranc
A separação entre os metatarsos e o meio do pé: o que se preserva, os cuidados com o tornozelo e a prótese.

Resposta curta: A amputação de Lisfranc retira os metatarsos e os dedos, separando-os do meio do pé numa articulação, sem cortar osso. Ficam o calcanhar e os ossos do meio do pé. O coto ainda recebe peso, mas o equilíbrio do tornozelo pede atenção.
Onde é feita
No meio do pé existe uma linha de articulações que liga os cinco metatarsos aos ossos do tarso, que formam o peito do pé. Essa linha se chama articulação tarsometatarsal, ou articulação de Lisfranc, pelo nome do cirurgião francês que descreveu a técnica.
A amputação de Lisfranc é uma desarticulação: o cirurgião separa os ossos na articulação, em vez de serrar o osso. Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Medicine a define como a desarticulação no nível tarsometatarsal. Ficam o calcanhar, o tálus e os ossos do meio do pé.
O Ministério da Saúde agrupa esse nível entre as amputações parciais do pé. As Diretrizes de Atenção à Pessoa Amputada orientam preservar o máximo de comprimento possível, num nível que cicatrize bem e tenha boa cobertura de pele.
Por que é indicada
A revisão de 2023 lista doença vascular, diabetes, infecção grave com risco de vida, tumor e trauma grave do pé. A maioria das pessoas nos estudos revisados foi amputada por diabetes ou por trauma.
No Brasil, as diretrizes do Ministério da Saúde registram que a maior parte das amputações de membro inferior acontece em pessoas com doença vascular periférica ou diabetes, e que o trauma é a segunda causa.
Como fica o coto
O coto de Lisfranc é curto na frente, mas mantém o calcanhar e o apoio do meio do pé. Na revisão de 2023, 85% das pessoas acompanhadas num dos estudos conseguiam andar pequenas distâncias sem prótese. Os autores também notaram que, nesse nível, andar sem prótese em distâncias curtas é mais fácil do que depois de uma amputação de Syme ou de Pirogoff.
O cuidado próprio desse nível é o tornozelo. Sem a frente do pé, os músculos da panturrilha puxam o calcanhar para cima e o pé tende a apontar para baixo, a chamada deformidade em equino. Na revisão, 12% das pessoas com Lisfranc apresentaram algum grau de equino nos primeiros 6 meses. Para prevenir, o cirurgião pode fazer a tenotomia do tendão de Aquiles ou reposicionar tendões que levantam o pé.
A cicatrização também pede paciência. A revisão encontrou falha de cicatrização em 20% dos casos de Lisfranc, número que não diz o que vai acontecer com você, mas explica por que a equipe acompanha a ferida de perto.
O que esperar, fase a fase
- Cirurgia e internação: o tempo depende da saúde geral e do controle da infecção, quando ela existe. Você aprende a se transferir e a se deslocar com apoio.
- Cicatrização: o MedlinePlus orienta não colocar peso sobre a ferida por pelo menos 2 semanas, ou mais. A ferida fica limpa e seca.
- Controle do inchaço e posição: faixa ou meia compressiva, com a compressão maior na ponta, como orienta o Ministério da Saúde. Evite deixar o pé pendurado e mantenha o tornozelo em posição neutra.
- Preparo do coto: mobilização do tornozelo, fortalecimento da perna e dessensibilização da cicatriz com a ferida fechada.
- Prótese provisória: quando a ferida fecha e a região não dói ao toque, o protesista faz o molde do coto.
- Treino: equilíbrio, transferência de peso, rampa, escada e terreno irregular, com o fisioterapeuta.
- Prótese definitiva: ajustada ao formato estável do coto, com revisões periódicas.
Não há prazo fixo. Cicatrização, circulação e o comportamento do tornozelo definem o ritmo.
Prótese para esse nível
No Lisfranc, a palmilha simples costuma não bastar, porque falta toda a frente do pé. As opções descritas pela Cleveland Clinic para amputação parcial de pé incluem a órtese de tornozelo e pé com a parte do pé adaptada, a prótese de silicone moldada no coto e a palmilha de fibra de carbono que vai até a ponta. O desenho sobe mais ou menos pela perna conforme a estabilidade do tornozelo.
Veja o guia da prótese de pé, que trata das amputações parciais. Os componentes estão no catálogo, em pés protéticos. A indicação vem da avaliação, com o coto na mão do protesista.
Reabilitação e dia a dia
Em casa, o cuidado com a pele é diário: lavar com sabão neutro, secar bem e olhar o coto com espelho. O MedlinePlus pede contato com o cirurgião se houver vermelhidão, calor, secreção, febre ou mau cheiro.
A fisioterapia trabalha o alongamento da panturrilha, o equilíbrio e o passo com a prótese. A terapia ocupacional ajuda a organizar o cuidado com o coto, o calçar e a volta às tarefas. As diretrizes do Ministério da Saúde lembram de vigiar o outro pé, porque a causa pode ser a mesma.
O MedlinePlus descreve tristeza, raiva e sensação fantasma como reações esperadas depois da amputação. A equipe está lá para ouvir isso também.
Perguntas frequentes
O que é a articulação de Lisfranc?
É a linha de articulações entre os metatarsos e os ossos do meio do pé. Na amputação de Lisfranc, o pé é separado exatamente nessa linha.
Dá para andar sem prótese depois de uma Lisfranc?
Muita gente consegue andar distâncias curtas sem prótese, segundo a revisão de 2023. Para o dia a dia, a prótese ou a órtese protegem a pele e melhoram o passo.
Por que o médico fala em tendão de Aquiles?
Porque sem a frente do pé o calcanhar tende a subir e o pé aponta para baixo. Soltar ou alongar o tendão é uma das formas de prevenir essa deformidade.
Qual a diferença entre Lisfranc e Chopart?
A Lisfranc é mais distal: separa os metatarsos do meio do pé. A Chopart é mais proximal e deixa só o tálus e o calcâneo. Veja a página de amputação de Chopart.
Quanto custa a prótese para esse nível?
Depende da solução. O guia da prótese de pé traz as faixas de referência, e o valor exato sai depois da avaliação.
Tenho direito a prótese pelo SUS?
O SUS tem regras próprias de acesso. A página de direitos explica os caminhos.
Leia também
- Tipos de amputação de pé
- Tipos de prótese para pé
- Como preparar o coto para a prótese
- Direitos da pessoa amputada
- Agendar avaliação
Fontes
- Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa Amputada. Brasília, 2013.
- van der Wal G. E., Dijkstra P. U., Geertzen J. H. B. Lisfranc and Chopart amputation: A systematic review. Medicine (Baltimore), 2023 (PubMed Central, NIH).
- MedlinePlus (NIH). Foot amputation: discharge.
- MedlinePlus (NIH). Leg or foot amputation.
- Cleveland Clinic. Prosthetic Foot.
Conteúdo informativo, não substitui a orientação do médico e da equipe de reabilitação. Atualizado em 28/09/2026.
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