Nível de amputação pensando na prótese
Comprimento do coto, articulações, partes moles, nervo e pé diabético: o que o nível escolhido muda na protetização.

Resumo técnico: A Diretriz do Ministério da Saúde orienta preservar tanto comprimento quanto possível, com boa cicatrização, cobertura cutânea adequada e sensibilidade preservada [1]. O nível é tanto mais adequado quanto melhor se prestar à adaptação de uma prótese funcional [1]. A diretriz VA/DoD de 2024 sugere incluir objetivos de reabilitação na decisão compartilhada sobre nível e comprimento, antes da cirurgia, e considera insuficiente a evidência para preferir uma técnica cirúrgica a outra [2].
O princípio geral
A escolha do nível combina três exigências. A primeira é biológica: cicatrizar, com pele de boa qualidade e sensibilidade [1]. A segunda é a etiologia e a idade do paciente [1]. A terceira é protética: o coto precisa receber um encaixe, transmitir carga e controlar a prótese [1].
A diretriz VA/DoD de 2024 traz duas recomendações diretas sobre o tema [2]:
- Recomendação 1: não há evidência suficiente para recomendar um procedimento cirúrgico de amputação em vez de outro (neutra).
- Recomendação 7: antes da cirurgia, sugere incluir na decisão compartilhada os objetivos de reabilitação, os desfechos e as demais implicações do comprimento do coto e do nível (fraca a favor).
Na prática, isso favorece conversar com a equipe de reabilitação e com o protesista antes da cirurgia eletiva, sempre que o quadro clínico permitir.
Níveis de referência
A Diretriz do Ministério da Saúde lista os níveis abaixo [1]. Os códigos CID-10 correspondentes estão na mesma publicação e aparecem na página de prescrição e laudos.
| Membro superior | Membro inferior |
|---|---|
| Desarticulação do ombro | Hemipelvectomia |
| Transumeral | Desarticulação do quadril |
| Desarticulação do cotovelo | Transfemoral |
| Transradial | Desarticulação do joelho |
| Desarticulação do punho | Transtibial |
| Transcarpiana | Desarticulação do tornozelo, Syme, parcial do pé |
Comprimento do coto
Membro inferior
O comprimento do coto, junto com o encaixe, afeta o equilíbrio muscular e o controle motor [4]. Em 26 militares com amputação transfemoral, os de coto mais longo escolheram velocidade de marcha maior (1,28 m/s contra 1,11 m/s) [4]. O mesmo estudo não encontrou diferença de consumo de oxigênio entre os grupos, nem por comprimento nem por orientação do fêmur [4].
Os autores concluem que o comprimento pesa menos na eficiência energética da marcha transfemoral do que se supunha [4]. Para o protesista, o limite do comprimento aparece quando o coto não deixa espaço para os componentes, tema tratado abaixo [3][5].
Membro superior
No membro superior, cirurgiões e protesistas nem sempre concordam. Uma revisão de 2025 comparou as duas perspectivas [3]:
| Nível | Perspectiva cirúrgica | Perspectiva protética |
|---|---|---|
| Transradial | Preservar comprimento para manter pronação e supinação. Mínimo de 5 cm a partir do cotovelo; 16 a 18 cm distais ao olécrano dão alavanca maior | Buscar simetria com o lado contralateral, descontando o espaço do dispositivo terminal. Pelo menos 4 cm de ulna a partir do olécrano |
| Transumeral | Reter ao menos 5 a 7 cm, cerca de 25% a 30% do úmero | Deixar cerca de 14 cm para a unidade de cotovelo protética, buscando simetria |
| Desarticulação do punho | Preferida a níveis mais proximais quando há tecido para cobertura | Em geral menos favorecida pela discrepância de comprimento; transradial preferido |
Os autores concluem que o planejamento pré-operatório conjunto entre cirurgião, protesista e equipe de reabilitação tende a melhorar o resultado protético [3].
Desarticulação ou nível transósseo
Na desarticulação, o ganho de alavanca e de descarga distal vem com um custo de espaço para componentes e de simetria [3][5].
Desarticulação do joelho
Em 101 pacientes com desarticulação do joelho, a prótese foi adaptada com sucesso em 83%, e só 10% não usaram prótese nem pilão [5]. O autor atribui ao coto longo com descarga distal um melhor equilíbrio e controle da prótese [5]. As desvantagens citadas foram a cicatrização mais lenta, a falta de espaço para um mecanismo de joelho interno e o volume da prótese [5]. Esse estudo é de 1968 e antecede os joelhos policêntricos atuais.
O estudo LEAP encontrou mais dor e mais dificuldade funcional na desarticulação do joelho do que na transfemoral [6]. Um comentário de Pinzur atribui a diferença à técnica: amputações feitas dentro da zona de lesão, sem priorizar um coxim de partes moles para a descarga distal [6]. O mesmo comentário lembra que faltam dados sobre comprimento femoral e qualidade das partes moles nesses grupos [6].
Consequência para a prótese
| Ponto | Desarticulação | Transósseo com coto longo |
|---|---|---|
| Descarga distal | Em geral possível [5][6] | Depende da técnica e do coxim |
| Espaço para componentes | Menor, pode gerar assimetria [3][5] | Maior, conforme o nível do corte |
| Braço de alavanca | Máximo | Proporcional ao comprimento [4] |
Partes moles, miodese e mioplastia
A diretriz VA/DoD de 2024 revisou técnicas como miodese e mioplastia, ponte óssea (Ertl), enxertos e retalhos, e procedimentos de preservação de comprimento [2]. A conclusão foi que a evidência não permite recomendar uma técnica sobre outra [2].
Do ponto de vista do encaixe, o que importa é o resultado: um coto estável, com cobertura de boa qualidade e sem proeminências dolorosas. A Diretriz do Ministério da Saúde pede registrar, na avaliação pré-protética, a forma do coto (globoso ou cônico), cicatriz hipertrófica, aderências, enxertia, neuroma e espículas ósseas [1]. Cada um desses achados muda o desenho do encaixe e pode adiar a moldagem.
Tratamento do nervo e neuroma
O neuroma sintomático interfere diretamente no uso do encaixe. A CID-10 tem código próprio para ele: T87.3, neuroma de coto da amputação [1].
Uma revisão sistemática com metanálise comparou reinervação muscular dirigida (TMR) e interface nervosa periférica regenerativa (RPNI) primárias com o manejo convencional [7]:
- Dor fantasma: OR 0,25 (IC 95% 0,16 a 0,38), em quatro estudos com 885 pacientes.
- Dor no coto: OR 0,24 (IC 95% 0,11 a 0,50), em três estudos com 760 pacientes.
- Neuroma: diferença sem significância estatística, em um único estudo com 90 pacientes.
- Certeza da evidência: baixa a moderada, sem ensaios randomizados.
A diretriz VA/DoD de 2024 considera a evidência insuficiente para recomendar a favor ou contra TMR e outras cirurgias de nervo periférico para dor fantasma [2]. A mesma diretriz sugere cateter perineural intraoperatório para anestésico local no pós-operatório [2].
Nível no pé diabético
A amputação transmetatarsiana preserva os tendões tibial anterior e fibulares e o calcanhar, e pode permitir marcha sem prótese [8]. A cicatrização, porém, é imprevisível. Numa série de 146 pacientes [8]:
- 72% cicatrizaram no nível transmetatarsiano.
- 28% precisaram de nível mais alto (Lisfranc, Chopart ou transtibial).
- A infecção pós-operatória foi o preditor independente mais forte de falha, com mais de quatro vezes a chance de amputação proximal.
- 83% seguiam deambulando no seguimento.
Em outra coorte de 100 pacientes diabéticos com amputação transmetatarsiana ou de raio, seguidos por dez anos, houve reamputação em 26% e recidiva de úlcera em 53,2% [9]. Só 6,67% das transmetatarsianas progrediram para amputação transtibial [9]. Os autores ligam o resultado ao seguimento estruturado e multiprofissional [9].
Para a protetização, isso tem duas consequências:
- A recidiva de úlcera é frequente [9], o que exige inspeção da pele a cada ajuste do dispositivo do pé parcial.
- O membro contralateral precisa de monitoramento constante, como orienta a Diretriz do Ministério da Saúde [1].
Nível e potencial funcional
O nível não define sozinho a prótese. Nos critérios do CMS, a prescrição de membro inferior se apoia no nível funcional de K0 a K4, avaliado pelo histórico, pela condição do coto, pelas outras condições clínicas e pelo desejo de deambular [10]. A Diretriz do Ministério da Saúde acrescenta a avaliação cognitiva antes da cirurgia, sempre que possível, porque alterações cognitivas predizem dificuldade de adaptação à prótese [1].
Na Conforpés
A Conforpés avalia o paciente antes da prescrição dos componentes. O molde, o encaixe de prova e os ajustes são feitos no laboratório próprio, em Sorocaba. A fisioterapia e a terapia ocupacional ficam na mesma sede, o que permite ajustar o encaixe durante o treino. Parte da equipe usa prótese.
Quando o nível ainda está em discussão, o profissional pode encaminhar o paciente para uma avaliação protética antes da cirurgia eletiva. Veja como encaminhar. Para o paciente e a família, há guias por nível, como transtibial, transfemoral e desarticulação do joelho.
Perguntas frequentes
Existe um comprimento ideal de coto transtibial ou transfemoral?
As referências consultadas não fixam um número único para o membro inferior. O princípio é preservar comprimento com boa cobertura e sensibilidade [1]. No membro superior há medidas propostas por cirurgiões e por protesistas [3].
A desarticulação do joelho é melhor que a transfemoral?
Os dados são conflitantes. Há vantagem de alavanca e descarga distal [5], mas o LEAP mostrou pior desfecho, possivelmente por técnica e partes moles [6]. A diretriz VA/DoD não recomenda uma técnica sobre outra [2].
TMR ou RPNI devem ser feitas de rotina?
A metanálise sugere menos dor fantasma e dor no coto, com certeza baixa a moderada [7]. A diretriz VA/DoD considera a evidência insuficiente para recomendar a favor ou contra [2].
Quando o protesista deve participar?
A diretriz VA/DoD sugere discutir nível e comprimento com os objetivos de reabilitação antes da cirurgia [2]. Uma revisão de membro superior defende o planejamento conjunto com o protesista [3].
O que registrar sobre o coto para a equipe de protetização?
Forma, cicatriz, aderências, enxertia, neuroma e espículas ósseas, além do comprimento a partir da linha articular e da perimetria a partir de 5 cm do ápice [1]. A diretriz também pede radiografia em dois planos ortogonais [1].
Referências
- Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa Amputada. Brasília, 2013.
- VA/DoD. Clinical Practice Guideline for Rehabilitation of Individuals with Lower Limb Amputation. Versão 2024, publicada em janeiro de 2025.
- Apagüeño B, Munkwitz SE, Mata NV et al. Optimal Sites for Upper Extremity Amputation: Comparison Between Surgeons and Prosthetists. Bioengineering (Basel), 2025;12(7):765.
- Bell JC, Wolf EJ, Schnall BL et al. Transfemoral Amputations: Is There an Effect of Residual Limb Length and Orientation on Energy Expenditure? Clin Orthop Relat Res, 2014;472(10):3055-3061.
- Early PF. Rehabilitation of Patients with Through-knee Amputation. British Medical Journal, 1968.
- Pinzur MS. CORR Insights: Are Gait Parameters for Through-knee Amputees Different From Matched Transfemoral Amputees? Clin Orthop Relat Res.
- Yuan M et al. Targeted Muscle Reinnervation and Regenerative Peripheral Nerve Interfaces Versus Standard Management in the Treatment of Limb Amputation: A Systematic Review and Meta-Analysis. Plastic Surgery, 2022;32(2):253-264.
- Functional and Patient-reported Outcomes following Transmetatarsal Amputation in High-risk Limb Salvage Patients. PubMed Central.
- Zambelli et al. Transmetatarsal and Ray Amputations in Diabetic Foot: Do They Really Improve Survival and Reduce Progression to Major Amputations? A 10-Year Follow-Up Analysis. Foot & Ankle Orthopaedics, 2025.
- CMS. Local Coverage Determination L33787: Lower Limb Prostheses.
Material de apoio técnico para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem os protocolos da instituição. Atualizado em 28/09/2026.
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