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Classificação K e prescrição de componentes

Os cinco níveis funcionais do Medicare, os instrumentos que ajudam a documentá-los e a relação com joelhos e pés protéticos.

Ilustração de fisioterapeutas avaliando a marcha de um paciente com prótese acima do joelho, com um quadro de níveis de atividade

Resumo técnico: A classificação K descreve o potencial funcional da pessoa com amputação de membro inferior em cinco níveis, de K0 a K4, e foi definida pelo Medicare na LCD L33787 [1]. O nível é estimado pelo médico assistente e pelo protesista a partir da história, da condição clínica e do coto, e orienta quais famílias de pé e de joelho são justificáveis [1]. Instrumentos como o Amputee Mobility Predictor ajudam a documentar essa estimativa [2].

Os cinco níveis funcionais

A LCD L33787 do CMS usa o termo "functional level" e o define como capacidade ou potencial. A avaliação considera o que o paciente faz hoje e o que se espera que ele alcance com a prótese [1].

NívelDefinição da LCD L33787 (tradução livre)Perfil típico
K0Não tem capacidade nem potencial para deambular ou se transferir com segurança, com ou sem ajuda. A prótese não melhora a mobilidade nem a qualidade de vida.Sem indicação de prótese para marcha
K1Capacidade ou potencial para usar a prótese em transferências ou marcha em superfície plana, com cadência fixa.Deambulador domiciliar, limitado ou não
K2Capacidade ou potencial para deambular vencendo barreiras ambientais baixas, como meio-fio, degraus e piso irregular.Deambulador comunitário limitado
K3Capacidade ou potencial para deambular com cadência variável, vencendo a maioria das barreiras. Pode ter atividade profissional, terapêutica ou física que exija da prótese mais do que a locomoção simples.Deambulador comunitário
K4Capacidade ou potencial para marcha protética acima das habilidades básicas, com alto impacto, estresse ou gasto energético.Criança, adulto muito ativo, atleta

A própria LCD registra duas ressalvas. O prontuário deve documentar a capacidade atual e o potencial esperado, explicando a diferença quando houver. E a pessoa com amputação bilateral muitas vezes não se encaixa com rigor nessa hierarquia [1].

Quem define e o que precisa estar documentado

Segundo a LCD, o potencial funcional se baseia na expectativa razoável do médico assistente e do protesista, considerando pelo menos [1]:

A LCD também estabelece que a prótese de membro inferior é coberta quando o paciente vai alcançar ou manter um estado funcional definido em tempo razoável e está motivado a deambular. No nível K0, a prótese é negada [1].

No Brasil, a escala não é norma do SUS. As Diretrizes de Atenção à Pessoa Amputada, do Ministério da Saúde, não adotam a classificação K. Elas recomendam avaliar amplitude de movimento, força, independência nas atividades de vida diária, condicionamento, suporte social e cognição antes de definir a reabilitação [3]. Na prática, a classificação K funciona como linguagem comum entre equipe, protesista e fabricante, que indicam os componentes por nível.

Instrumentos de avaliação

A diretriz VA/DoD de 2024 para reabilitação após amputação de membro inferior sugere combinar medidas relatadas pelo paciente e medidas de desempenho com boas propriedades psicométricas. Ela não aponta um instrumento superior aos outros, mas recomenda repetir o mesmo instrumento ao longo do tempo para permitir comparação [4].

InstrumentoO que medeEvidência consultada
AMPPROPotencial de marcha com a próteseDistinguiu os quatro níveis funcionais do Medicare; confiabilidade interavaliador de 0,99; correlação de 0,82 com o teste de caminhada de 6 minutos [2]
AMPnoPROPotencial de marcha sem a prótese, útil antes da protetizaçãoDistinguiu os quatro níveis funcionais; correlação de 0,69 com o teste de 6 minutos [2]
Timed Up and Go (TUG)Mobilidade funcional: levantar, andar, virar e sentarConfiabilidade teste-reteste forte em pessoas com amputação unilateral de membro inferior [5]
Teste de caminhada de 2 minutosDistância percorrida em 2 minutosConfiabilidade teste-reteste forte, com mínima mudança detectável calculada [5]
Teste de caminhada de 6 minutosDistância percorrida em 6 minutosConfiabilidade teste-reteste forte [5]; usado como referência na validação do AMP [2]

No estudo de Resnik e Borgia, os testes de desempenho tiveram coeficiente de correlação intraclasse entre 0,83 e 0,97. Os autores calcularam a mínima mudança detectável de cada medida, que serve para saber se uma melhora supera o erro de medida do dia a dia [5]. O estudo não avaliou se as mudanças eram clinicamente relevantes [5].

Esta página não traz pontos de corte do AMP para cada nível K, porque eles não constam do resumo do artigo de validação consultado [2]. Para usar pontos de corte, o profissional deve consultar o texto completo do instrumento.

Nível K e família de componentes

A LCD L33787 relaciona o nível funcional à cobertura de cada tipo de pé, joelho e articulação. A tabela resume o caso habitual. A LCD admite exceção individual quando a documentação justifica a necessidade [1].

ComponenteNível mínimo na LCD L33787
Pé SACH de quilha externa ou pé e tornozelo de eixo únicoK1
Pé de quilha flexível ou pé e tornozelo multiaxialK2
Pé de armazenamento de energia, pé de resposta dinâmica, sistema de pé e tornozelo microprocessadoK3; em K2 só quando exigido por joelho hidráulico, pneumático ou microprocessado que cumpra os critérios de K2
Unidade de rotação axial no tornozeloK2
Joelhos de outros sistemas (por exemplo, eixo único de atrito constante)K1
Joelho hidráulico ou pneumático, controle hidráulico e joelho microprocessadoK3; em K2 com critérios adicionais
Estrutura de joelho para alta atividadeK4
Articulação de quadril policêntrica hidráulica ou pneumáticaK3

Para o joelho hidráulico, pneumático ou microprocessado em paciente K2, a LCD exige avaliação clínica do nível funcional e justificativa de como o joelho vai melhorar desfechos (menos quedas, prevenção de lesão, menor gasto energético), ajudar nas atividades de vida diária e por que sistemas mais simples foram descartados [1]. Para o microprocessado em K2, exige ainda recuperação de tropeço, capacidade de carregar a bateria todo dia e de entender alertas do equipamento [1].

Por uma questão de regra de pagamento, a LCD nega o pé ou tornozelo microprocessado com motor (código L5969) por falta de informação suficiente. Isso é um critério de cobertura nos Estados Unidos, não uma contraindicação clínica [1].

A diretriz VA/DoD de 2024 acrescenta duas sugestões de força fraca: preferir joelho microprocessado a não microprocessado para reduzir quedas e melhorar mobilidade e satisfação, e preferir pés de armazenamento e retorno de energia ou microprocessados ao pé SACH. Ela não encontrou evidência para preferir um modelo específico de pé sobre outro [4].

O catálogo da Conforpés informa o nível K ou a escala equivalente de cada fabricante por modelo:

A classificação K não se aplica ao membro superior. Para mão, dedos e cotovelo, a escolha segue nível de amputação, sinal muscular e tarefas, como descrito em mãos protéticas e reabilitação com prótese.

O que o laudo deve registrar

Com base nos elementos que a LCD pede no prontuário [1], um registro útil ao protesista contém:

  1. Nível K atual e nível K esperado, com a justificativa da diferença.
  2. Instrumento usado, data e resultado, repetindo o mesmo instrumento nas reavaliações [4].
  3. Estado do coto e comorbidades que afetam a marcha.
  4. Uso anterior de prótese, se houver.
  5. Objetivos funcionais concretos: dentro de casa, na rua, no trabalho, no esporte.

A página prescrição e laudos detalha os campos para SUS, plano de saúde, INSS e via judicial.

Na Conforpés

A Conforpés faz a avaliação, a moldagem, o encaixe de prova, o ajuste e a fisioterapia com a prótese no mesmo endereço. Isso permite que o nível funcional estimado na avaliação seja revisto durante o treino, antes da definição dos componentes do encaixe definitivo. Parte da equipe usa prótese, o que ajuda na conversa com o paciente sobre objetivos.

O relatório do profissional que encaminha, com o nível K estimado e o instrumento usado, é incorporado à avaliação. As orientações de envio estão em como encaminhar.

Perguntas frequentes

O nível K pode mudar depois da protetização?

Pode. A LCD define o nível por capacidade ou potencial e pede que o prontuário registre o nível atual e o esperado [1]. Reavaliar com o mesmo instrumento permite documentar a mudança [4].

O AMPnoPRO serve para paciente que ainda não tem prótese?

Sim. O AMPnoPRO foi desenvolvido para medir o potencial de marcha sem a prótese e distinguiu os quatro níveis funcionais do Medicare no estudo de validação [2].

Paciente K2 pode receber joelho microprocessado?

Pela LCD L33787, sim, desde que cumpra os critérios adicionais: avaliação formal, justificativa de benefício, descarte de sistemas mais simples, recuperação de tropeço e capacidade de lidar com carga e alertas [1]. No Brasil, a cobertura depende do contrato ou da política do pagador.

Como classificar o paciente com amputação bilateral?

A LCD reconhece que a pessoa com amputação bilateral muitas vezes não se enquadra com rigor na classificação [1]. Nesses casos, vale descrever a função observada e os objetivos em detalhe.

Qual teste escolher: TUG, 2 ou 6 minutos?

A diretriz VA/DoD não encontrou evidência para preferir um instrumento a outro [4]. Os três têm confiabilidade teste-reteste forte nessa população [5]. A escolha pode seguir o tempo disponível e a tolerância do paciente, mantendo o mesmo teste nas reavaliações.

Referências

  1. Centers for Medicare & Medicaid Services. Local Coverage Determination L33787: Lower Limb Prostheses. cms.gov.
  2. Gailey RS, Roach KE, Applegate EB, et al. The amputee mobility predictor: an instrument to assess determinants of the lower-limb amputee's ability to ambulate. Arch Phys Med Rehabil. 2002;83(5):613-27. PubMed 11994800.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa Amputada. Brasília, 2013. bvsms.saude.gov.br.
  4. Department of Veterans Affairs, Department of Defense. VA/DoD Clinical Practice Guideline for Rehabilitation of Individuals with Lower Limb Amputation. Dezembro de 2024. healthquality.va.gov.
  5. Resnik L, Borgia M. Reliability of outcome measures for people with lower-limb amputations: distinguishing true change from statistical error. Phys Ther. 2011;91(4):555-65. PubMed 21310896.

Material de apoio técnico para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem os protocolos da instituição. Atualizado em 28/09/2026.

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